A BALSA

(CRÔNICA DE UM USUÁRIO, ESTUDIOSO E COLECIONADOR DE BALSAS)


A balsa é a instituição mais democrática da política acreana. Ela se constitui no meio de transporte, que a cada eleição, abriga os derrotados pelas urnas, numa travessia dolorosa de Rio Branco, saindo do porto da gameleira, até a cidade amazonense de Manacapuru. Trata-se de uma viagem de "purgação" para se fazer a catarse das fortes emoções da campanha, chorar as mágoas da derrota e liberar as tensões reprimidas. Durante o percurso, os usuários da balsa são submetidos a uma rigorosa dieta a base de "chibé (pirão de agua morna com coentro e sal) e vão ouvindo o chõro dos surubins, que escoltam a balsa até Manacapuru. Histórico:
Com a anexação do Acre ao Brasil, a Lei 1181 de 25/02/1904, organiza o Acre em Território Federal, dividindo-o em três departamentos autônomos: Alto Acre, Alto juruá e Alto Purus. Está decisão frustrou os chefes revolucionários, que esperavam que o Acre fosse constituido como Estado autõnomo e que eles pudessem influir nos mecanismos de poder. Com as nomeações dos Prefeitos Departamentais e dos Intendentes das sedes Departamentais, as disputas políticas se acentuaram. Os seringalistas se dividiram ente os "históricos", que haviam participado da campanha revolucionária e os "não-históricos", formando-se facções contra e pró Plácido de Castro, a principal liderança que emerge do processo revolucionário. Daí que os primeiros anos do Território se caracteriza por uma grande instabilidade política. Destaque´se que entre 1904 e 1912 se sucederam nada menos do que 14 Prefeitos Departamentais.
Uma matéria que sai publicada no periódico "O Rio Acre" de 5/12/1908, divulga uma carta do Dr. Gambino Bezouro que exercia o comando do Departamento do Alto Acre, a qual nos oferece alguns indícios sobre a instituição da balsa. Naquela matéria Gambino Bezouro descreve a situação do Acre e relata uma tentativa de Plácido de Castro para destituí-lo do cargo. Eis o trêcho, onde se faz pela 1ª vez, referência a "balsa". "(...) Feito isto, desceram o rio certos de que me surprenhenderiam com poucos soldados, estes mesmos disseminados em diversos serviços, me tomariam e me fariam descer na tal balsa de que já lhe falei no começo desta!! Em Caminho, porém, o Plácido soube do que ocorria, da chegada do reforço da Companhia Regional e da metralhadora, do pessoal que me cercava para defender-me, da fuga do Juiz e outros seus amigos e esmoreceu. Na lancha que tomou a força no caminho disse ao comandante: este prefeito é soldado, se o governo der-lhe força é para desatinos e eu terei de prendê-lo e fazê-lo descer na balsa. (...) Felizmente estou cercado de bons elementos de força e tenho esperança de que a tentativa do Sr.Plácido não se reproduzirá. É isto que muitos julgam um paraizo, uma comissão rendosa, levando em pouca conta os serviços aqui prestados, nestas regiões doentias, longe do mundo, sem conforto, sem sociedade, pondo em risco a todo momento vida e saúde! Finalmente tudo passou sem haver sangue, pelo que estou satisfeitíssimo." Depois dessa primeira referência a balsa, há outro fato histórico ocorrido em 1910, que nos faz levantar a hipótese, que a instituição da balsa remonta aos primeiros anos daquele período. Num outro conflito entre as oligarquias seringalistas, o Prefeito Departamental, Leônidas Benício de Melo é destituido do cargo e foi conduzido preso numa lancha do Território com "ordens de ser desembarcado no primeiro barranco quando a embarcação atingisse o Estado do Amazonas."Não sei ainda precisar se o barranco onde Benício de Melo foi "desembarcado" fazia parte do município de Manacapuru, destino do "exílio temporário e obrigatório" de todos que perdem eleições no Acre. Na década de 50, um jornal da época, "Jornal do Povo" traz uma matéria assinada por Aluisio Queiroz, um truculento delegado de polícia, que perdeu a eleição e se recusa a embarcar na balsa. Eis um pequeno trecho do seu artigo "DE BALSA, NÃO!", datado de 12/09/1954, -"Esta é a segunda vez que somos gentilmente convidados para regressar em tão incômodo meio de transporte. Por ocasião da campanha passada, tivemos identico convite, o qual recusamos, pois achamos muito pouco amistoso o gesto dos nossos adversários. (...) O Acre inteiro já sabe que a Coligação Democrática do Acreana defende a religião cristã, enquanto os nossos adversários desejam a expulsão dos padres e freiras de todo o Território. Se balsa houvesse, não seria só para nós, pois teríamos, em nossa campanhia, os Ministros de Deus. Mas, ainda não será desta vez que o compromisso anti-clerical e divorcista executará os seus planos criminosos e antipatrióticos." (Ass. Aluisio Queiróz).
Aos balsistas, "majoritários da versão 2008", Petecão, Bocalom e, meu dileto aluno, Rocha, sejam benvindos a Manacapuru.



A minha balsa particular que saiu de ponta Negra, em Natal. Na época estava no meu Mestrado naquela cidade. Foi a derrota mais dolorosa. A eleição de 1996, quando Marcos Afonso (PT), perdeu a Prefeitura de Rio Branco para Mauri Sérgio (PMDB).





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